11 Jul

Fanfic: Abandoned cap.36


Abandoned


Autora: NessieBlossom4

Capítulo 36: Morta

Erik sentou-se ao meu lado.
O seu olhar não parecia acusador ou distante, mas sim preocupado. Sabia que dentro da sua cabeça ele estava a ver diversas cenas esquisitas, sobre aquilo que eu poderá ter feito antes.
–Podes falar. –murmurei.
–Hum? –perguntou, fitando-me. Theodora ainda não voltara e nós estávamos ambos sentados no sofá principal, em frente à lareira preta, onde um fogo quente ardia.
–Podes falar. Sei que estás a pensar em centenas de coisas, algumas até nojentas (ou impróprias) demais… Mas podes falar, prefiro isso do que estares a pensar sozinho…
Vi pelo canto do olho que arregalara os olhos, mas insisti em continuar a olhar intensamente para o fogo e evitar o contacto com os olhos dele.


–Como é que sabes que estou a pensar nisso? –perguntou, calmamente –Como é que sabes que não estou a pensar em como esta sala é negra demais para alguém que nos queira bem? Ou que essas cenas todas maradas que tu andas-te a fazer não me deviam ter passado despercebidas? Ou que eu sou idiota de mais para perceber que algo de muito errado se passava contigo? –a sua voz subia perigosamente de tom, mas eu permaneci impassível –Ou que sou o rapaz/homem/vampyro/coisa mais estúpido que existe por não ter visto o que estava à frente dos meus olhos?
–Eu sei que não estás a pensar nisso –respondi, no mesmo tom anterior –Eu sei que estás a magicar sobre o que eu tenho feito, e eu sei que Theodora não nos quer mal nenhum, não me perguntes como, eu sei, sinto isso, eu sinto que é assim.
–E sempre sentiste… -segredou ele, com os olhos baixos –Mas eu estava demasiado concentrado em pensar que não tinhas problema nenhum para me aperceber…
–Não. –interrompi, bruscamente, quando me apercebi –Não… Nunca me senti assim… Nunca tive a certeza daquilo que as pessoas, nunca senti a mínima sombra daquilo que te preocupa, nunca senti se as intenções de alguém são boas ou se são más… Eu nunca senti nada disto!
O choque apoderara-se de mim. Eu lembrava-me de sentir aquilo, mas não sabia quando, ao certo, é que me tinha começado a dar conta do que as pessoas à minha volta sentiam, vagamente, claro.
–Não? –interrogou, confuso –Bem, foi só menos uma coisa, não anula o resto…
–Acenei, com a cabeça, sem perceber bem o que dissera. Estava absorta nos meus pensamentos… Era isso que Neferet fazia… Ela sabia de tudo, e eu começava a transformar-me no mesmo. Depois lembrei-me de outra coisa, que não se encontrava na minha linha de pensamentos.
Afaguei a zona dormente na barriga da minha perna direita, e depois a da esquerda, e arregacei as calças o mais que pude, um pouco acima do joelho.
Novos padrões cor de Safira enrolavam-se naquela zona, desenhando imagens variadas nas minhas pernas… Tinha estado demasiado ocupada para me aperceber daquela sensação de queimadura, seguida de uma dormência irritante… Demasiado ocupada para perceber que as minhas tatuagens tinham crescido, e tinham crescido imenso, porque, ao contrário de fazerem como eu pensava que iriam fazer, cobrindo-me o resto das costas, elas tinham crescido para baixo.
–Zoey…? –inquiriu Erik, quando olhou de novo para mim, mas a sua voz perdeu-se, quando olhou, maravilhado para as minhas pernas, esquecendo momentaneamente o seu enorme dilema cheio de drama e aparentemente sem solução…
–São mesmo giras… -murmurou, assombrado. Depois acrescentou, mais baixo, com um sorriso atrevido –imagina como é que não ficas sem calças…
Sorri-lhe, revirei os olhos e voltei a pôr as calças para baixo.
Ele riu-se.
–Foi só um comentário despropositado! –e depois acrescentou –Bem, há um propósito…
–Oh, cala-te!
Chegou-se mais para ao pé de mim, envolveu-me com os braços e puxou-me para junto de si, sentando-me no seu colo.
Passou os dedos pelas minhas costas, e depois assentou o queixo na cavidade do meu pescoço.
–Adoro-te… -murmurou.
–E eu a ti –respondi. Passei a mão pelo seu rosto, e esfreguei-o com as unhas para que o sangue nojento dos vampyros vermelhos, que entretanto tinha secado na sua cara –o que me deu uns certos arrepios…- , fosse arrancado e deixa-se a pele menos… asquerosa, nojenta e assustadora!
–Ao, Zoey, isso faz parte de mim! –exclamou, quando lhe espetei a unha na bochecha.
–Desculpa –encolhi-me, com ar culpado, que ele não viu, por isso não me serviu de muito.
Nesse momento, ouviram-se passos no corredor, e eu sai desajeitadamente do colo dele.
Theodora entrou na sala escura, com o vestido preto desalinhado, e dirigiu-se, automaticamente, para as janelas, para abrir as cortinas.
Uma luz pálida entrou pela janela. Estava a começar a amanhecer, deviam ser umas seis da manhã, mas ainda se ouviam berros lá fora.
Theodora voltou a fechar as cortinas, apavorada com o que quer que fosse que lá fora se estivesse a passar.
Voltou para perto de nós.
–A vossa amiga está lá dentro, a tomar banho, eu preparei-lhe um quarto, e também preparei um para vocês cada um de vocês –o facto de ela ter dito «um para cada um de vocês» desanimou-me, de uma forma que eu tentei suprimir –Só queria que me contasses a tua historia, Zoey, se não te importares, mas se estiveres demasiado cansada, deixa estar, posso ouvi-la amanhã.
–Não, claro, não tenho problema nenhum, posso contar agora.
Nesse momento, ouviu-se um campainha pesada tocar, e o toque repicou nos meus ouvidos.
Erik olhou-me com desespero, e Theodora ficou inquieta, mas eu senti, dentro de mim, algo que me dizia que não era nada maldoso ou perverso (ou tarado), mas sim outra pessoa, e uma pessoa que precisava de ajuda desesperadamente.
Levantei-me, com a impaciência que crescia, sem razão aparente, dentro de mim, a obrigar-me a reagir.
–Venham, acho que é importante.
Theodora pegou na sua candeia, que ainda estava acesa, e depois correu atrás de mim.
Abri as portas pesadas, e paralisei-me, a olhar para a calçada à minha frente.
Afrodite, agarrada a um corpo, e coberta de sangue (algum do qual me cheirava realmente bem, e outro que me cheirava a ratos mortos) chorava copiosamente perto das escadas de acesso à porta.
–Afrodite… -murmurei, chegando-me perto dela. A cabeça pendente no colo dela estava horrivelmente coberta de sangue, mas ainda consegui distinguir os contornos de Vénus.
–Porque é que a trouxeste? –perguntei, compadecida.
Ela não me respondeu.
–Larga-a Afrodite, tens de largá-la, tens de a deixar ir, ela já não tinha esperança.
–Tal…T…Tal…Talvez…Tiv…Tivesse –soluçou, dificilmente.
–Ela não tinha Afrodite, acredita em mim, tenho a certeza, e olha que agora elas parecem ter andado certas, então… Vais ter de largá-la, porque ela não vai voltar a viver, a tua Vénus morreu seis meses depois de tu entrares na Casa da Noite, ela era só um corpo, não era ela! –a minha voz soou cheia de compaixão, mas firmemente.
Aos poucos, Afrodite começou a ceder, deixando que o corpo ensanguentado escorrega-se para o chão.
Levantou-se e ficou imóvel. Caminhou atrás de nós, e fez o que lhe pedi, quando a mandei tomar banho, vestir novas roupas e dormir, mas os seus olhos não tinham expressão, e ela não estava bem.
Aliás, isso via-se bem, visto que fizera tudo o que lhe pedira…

CONTINUA…..

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