25 Jul

Fanfic: Abandoned cap.38


Abandoned


Autora: NessieBlossom4

Capítulo 38: Fim

Olhei pela janela do quarto escuro.
Não ia tardar a amanhecer.
Encostei a cabeça ao vidro frio.
Tudo era muito linear naquele momento. Podíamos até enumerar a quantidade de coisas sem sentido e, na maioria dos casos, horríveis, que tinham acontecido naquele dia… Afrodite ganhara coragem, eu faltara ao ritual mais importante do ano, Erik seguira-nos, Erik mudara, Erik descobrira… Stevie Rae matara Kayla, Stevie Rae voltara a ser diferente, Stevie Rae voltara a mudar um pouco, Afrodite encontrara Vénus, Neferet apanhara-nos, Loren era companheiro de Neferet, eles tinham impressão, Loren não me amava, Afrodite matara Vénus, eu tinha lutado com Neferet, eu tinha provocado uma explosão, eu começara uma guerra civil, Theodora descobrira-nos, nós descobríramos Theodora, Stevie Rae matara o marido dela, Afrodite reaparecera agarrada a um corpo…


Não, nada daquilo me chocava, me fazia rir ou chorar, naquele momento, até achei que a maioria das coisas seria previsível se eu tivesse tomado atenção, coisa que não fizera… Estava ali, perdida, no quarto branco e etéreo, que não condizia com a aquela casa, eram seis e meia da manhã e já se viam alguns raios de sol.
Lá fora, as coisas haviam acalmado, mas eu ainda via aqueles que estavam de pé, a agredir-se mutuamente. Mas agora eu via mais do que isso.
Eu via as pessoas. Eu via pessoas que levantavam cadáveres, eu via pessoas que choravam a sua morte, eu via aqueles que estavam feridos, os que os socorriam… Naquele momento, eu sentia-me péssima, e não era apenas por causa de todas as coisas que me tinham acontecido, mas também porque a minha estranha nova capacidade permitia-me sentir vagamente as centenas de emoções que percorriam todos os que via.
Devia ser assim que Neferet fazia. Ela tinha uma estranha consciência de tudo o que a envolvia, e a minha caminhava para ai. Mas eu sabia que tinha algo mais, pois não estava apenas a sentir dor, mágoa, agonia, tristeza e sofrimento, mas também a sentir uma brisa leve afagar-me o cabelo, ondas suaves acariciar-me os pés, um cheiro a terra molhada nas narinas, e um estranho calor por todo o corpo.
Só não se revelava os Espírito. Calculei que aquilo fosse um luto, que o Vento me consolava, a Água descansava, a Terra chorava e o vento prometia-me manter-se sempre perto de mim. Nyx não quisera aquilo, mas aquilo acontecera, e agora os elementos choravam as mortes, tanto humanas como vampyricas.
E o Espírito? Esse fazia o seu luto escondido algures dentro de mim, dando-me uma força secreta para conseguir enfrentar tudo…
A porta rangeu por detrás de mim.
–Z…Zoey? –soluçou alguém.
–Afrodite? –virei-me, instintivamente, para a encarar –Estás melhor?
–Não… Sinto-me péssima… Aliás, eu devia ter previsto aquilo, foi a pior coisa que já me aconteceu…
–Fizeste bem, ela não ia mudar.
–Talvez fosse… Talvez nós conseguisse-mos fazê-lo, com tempo…
–Talvez… -concordei, vagamente –Mas talvez é uma palavra muito vaga, e ultimamente tem sido demasiado utilizada… Se não tivesse mudado, as consequências seriam bem piores, então, mais vale jogar pelo seguro…
–Matando a minha melhor amiga… -murmurou ela.
–Sim, matando a tua melhor amiga.
O olhar dela tornou-se frio e distante, acusador.
–Pois, mas existem preços demasiado elevados Zoey! Aqueles gostos que não ias querer provar, mesmo que isso te custasse a vida, a ti ou aos outros! E não me venhas com tretas sobre o egoísmo, poorque sei muito bem que nada te faria matar Stevie Rae!
Ela deixou-me sem palavras.
–Tu tiveste força parao fazer. Parabéns, eu não te mandei fazê-lo, seguis-te o teu instinto. Procura dentro de ti, e vê a resposta!
–Eu estou farta dessas tretas! Quero-a de volta!
–Matáste-a, não a podes ter de volta. Tenho pena Afrodite, vai dormir, isso vai passar.
Ela encheu-se de raiva, mas saiu e bateu com a porta, pesadamente.
Tinha-lha dado um conselho, mas não o ia seguir.
Voltei à janela e chorei pesadamente, em conjunto com todos os outros, e quando não podia aguentar mais, dirigi-me à cama e deitei-me.
Mas nem nessa altura parei de chorar, imaginando cada pessoa e o seu papel ali.
Erin, Shaunee e umas botas, vinham-me à cabeça, e faziam-me sorrir, mas o sorriso morria ao pensar nas lindas botas que deviam estar agora manchadas de sangue, ou mesmo desfeitas.
Damien e Jack, abraçados e a sorrir-me, o que me fez alegre, antes de me lembrar que talvez se estivessem a abraçar de medo, e o seu sorriso fosse substituído por um medo terrrivel.
Alisha e Luke, a discutir sobre qualquer coisa idiota, e depois enrolados na marmelada a um canto, imaginei-me a reclamar com eles, a dizer-lhes para manterem as suas palavras, mas eles não me ligavam… E depois, pensei, talvez tivesse sido a ultima vez que o fizera-mos.
Jason… A chorar a um canto, depois de me ver com Erik… Eu era uma galdéria, e nada naquela memória me fazia sorrir, apenas chorar mais.
As lágrimas enchiam-me a cara, ensopavam a almofada, já tinha sorvido mais um gole de sangue, mas só me afundava mais, sem solução nenhuma para aquilo. Estava para morrer, sem esperança, uma única memória feliz que me consolasse… Rebusquei todos os cantos da minha memória, mas não encontrei nada que não fosse imediatamente transformado em algo horrível e nojento… E quanto começava a desesperar, lembrei-me que algo se mantinha normal e inquebrável, no meio de tudo.
Levantei-me, esfreguei os olhos para afastar algumas lágrimas e fui ate ao quarto ao lado, deitar-me na cama.
Ele não comentou, não disse nada, mas passou-me o braço à volta da cintura.
Naquele momento, os nossos pensamentos eram semelhantes, dirigidos ao mesmo propósito, e igualmente carregados de agonia.
–Amo-te –murmurou, ao meu ouvido, e foi como se tivesse levado uma estalada.
Amo-te, era apenas o que queria ouvir, o que me manteria livre de tudo, porque ele estaria sempre ali, e eu estaria sempre ali, por isso não valia a pena pensar em mais nada.
Fechei os olhos e relaxei, e foram apenas estes os meus pensamentos, que recordei de uma tarde em que tinha falado com a minha avó, antes de cair num sono profundo:
“Quando mais nada parece estar certo, agarra-te a quem amas, a aquém desejas, a quem queres… Agarra-te à esperança de um fim, à vontade de te sentires amada… Agarra-te aquilo que te faz sentir viva e respirar, agarra-te ao que te faz viver cada dia, dar cada passo…Agarra-te ao Amor que te foi dado, não penses mais, mas deixa-te levar…”

FIM!!!!!

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